Querido Spinoza, terminei um relacionamento há algum tempo, mas ainda o amo. E, quase agora, enquanto pensava em te escrever, li uma frase que dizia "Se dói é porque você escolheu a cura ao invés da anestesia". Então, se esta frase está correta, eu escolhei a "anestesia" para este meu Amor? Por favor, me ajuda.
R: Érica, achei intrigante a questão que levantou. Acredito que vou precisar me esteder um pouco para lhe responder suficientemente, tudo bem?
Sabe, querida, para mim “os homens sãos feitos de tal maneira que não podem viver sem uma lei comum” (ESPINOSA, 2009, p.7), estão sempre em busca de um esteio, de uma forma condicionada de vida – não sendo “livres” buscam a prisão, inconscientemente. E, claro, a percepção/prática deste tipo de ética, desta forma como se vive, neste caso, se posta com uma articuladora entre os códigos de existência (aceitos ou não, pelo contexto social) estipulando uma produção de vida que serve apenas ao seu contexto social. Ou seja, de uma maneira geral, todos parecem buscar organizar suas ações para que elas caibam dentro da comunidade em que se está inserida e, claro, isso também vale para para os relacionamentos.
O Amor (ou aquilo que vulgarmente se chama de amor) é na verdade o resultado prático de ações combinadas "quando se ama" dentro de certo contexto social (da mesma forma "quando se odeia"). A vida em sociedade estabelece determinadas formas de comportamento que nos instigam em todas as circunstâcnais - inclusive nas ações que perpassam nossa vida sentimental. Desta forma, há um código para o sofrimento, há um código para a falicidade, há um código para o amor. Ama quem é capaz de resproduzir a semitótica do amor, pois, amar exige o exercício prático desta "lei comum" que circunda a todos - quem não a põe em pratica não ama.
Quando, por outro lado, projetamos isso na dor, temos o mesmo resultado. O sofrimento, a dor, exige uma certa prática comumente aceita. Sofrer "por amor" é anular a própria existência, é assumir a impossibilidade de uma felicidade. Sofre por amor quem "diminui" sua felicidade, quem transparece. Não basta sofrer, é preciso que se pareça em sofrimento.
Parecer amar, parecer sofrer, são duas escolhas condicionantes de uma estrutura social, de uma sociedade, que está baseada na aparência. A busca pela verdade, pela consciência de si, deixou-se atravessada pelo verniz exterior, por um tipo de comportamente ético que - não podendo ser alcançando por ninguém - submete-se a uma ilusão fantasiosa do fingimento.
Os momentos da vida são atravessadas por situações que aumentam e diminuem nossa potência de agir. O amor verdadeiro não está, então, na forma como "parecemos ao mundo", mas na medida em que esta situação "aumenta nossa potência de agir" e, claro, da mesma forma, o sofrimento real manifesta-se na "diminuição" desta mesma potência. Mas, repare, em ambos os casos, não trabalho com a impossibilidade da ação. Viver é, indiscutivelmente, agir. A questão é que, quando estamos tomados pelos sofrimento, por exemplo, pela perda de quem se amava, temos a nossa capacidade de "escolha/agir" diminuida e vivemos condicionados pela dor. O exercício de uma vida Ética, por outro lado, não está articulada a escolhas que "nos constragem", mas as situações que escolhemos (dentro daquilo que é possível, como seres sociais, escolher). Neste ponto, a única solução possível para termos novamente o "aumento de nossa potência de agir" é encarar o sofrimento de frente; em suma, reconhecer os equívocos cometidos (tendo ciência daquilo que foi nossa responsabilidade ou do outro). Não se trata de simplesmente escolher entre "cura e anestesia", há algo de muito mais profundo aí, trata-se de escolher entre "viver" ou "viver por aparência".
Uma vida de aparência, no relacionamento amoroso ou não, é uma vida vivida na busca de anestesias e subterfúgios. Aliás, escolher a anestesia, ao invéis da cura, é escoher - ainda que inconscientemente - uma "vida de servidão". Neste caso, uma servidão ao sofrimento.
Talvez, os embrigados pelo Amor, prefiram escolher uma vida de servo. Mas, é preciso deixar claro uma coisa: o servo não escolhe, ledo engano. Não se escolhe "como viver", aonde "viver" e, principalmente, "porque viver". Assim, o servo, não vive, ele é atravessado pelas exigências daquilo que o comanda. Sua existência é apenas uma prática reativa. O servo é condicionado pelo senhor, ele deseja apenas aquilo que o senhor deseja, a liberdade é uma maldição. Por isso, perceba, os "anestesiados" vivem numa infinita busca de novas anestesias, logo que passe o efeito da última. Ou seja, resolvendo "uma questão" projetam uma nova para justificar o posicionamento de servo. Fundamental, então, é que - ainda que paulatinamente - busque-se a cura.
Talvez, os embrigados pelo Amor, prefiram escolher uma vida de servo. Mas, é preciso deixar claro uma coisa: o servo não escolhe, ledo engano. Não se escolhe "como viver", aonde "viver" e, principalmente, "porque viver". Assim, o servo, não vive, ele é atravessado pelas exigências daquilo que o comanda. Sua existência é apenas uma prática reativa. O servo é condicionado pelo senhor, ele deseja apenas aquilo que o senhor deseja, a liberdade é uma maldição. Por isso, perceba, os "anestesiados" vivem numa infinita busca de novas anestesias, logo que passe o efeito da última. Ou seja, resolvendo "uma questão" projetam uma nova para justificar o posicionamento de servo. Fundamental, então, é que - ainda que paulatinamente - busque-se a cura.
Curar-se, obviamente, não é uma tarefa simples. A cura é uma ação individual, não está em gurus e, claro, isso é um problema numa sociedade da "aparência", ou num meio em que todos buscam o "comum" e o social. Sua melhora, sua cura, não está nas regras criadas por outros. O aumento do seu equilíbrio, não está nas condutas que "qualquer outro idealizou", elas são suas e só suas. Ouvir/ler minhas palavras podem auxiliar no processo, mas o "aumento de sua potência de agir é (fundamentalmente) uma escolha individual e que, claro, só é passível com o uso do tempo.
Nossa razão, a maneira como entendemoso o mundo e nossas ações, é conduzida - num primeiro momento - também pelo afeto, logo, quem está em sofrimento, tenderá a escolhas que - de início - o levam ao sofrimento. Romper com a servidão é, tendo ciência do processo de condicionamento provocado pelo sofrimento, saber escolher situações que o diminuam - sem jamais ignorar sua existência. Assim, com o passar do tempo, com o aclaramento das ideias, com a melhora do "afeto inicial", nossas escolhas produzem ações "mais limpas" e menos influencidas por atitudes que diminuem a vontade. A cura, a liberdade, é um processo demorado, mas a única forma possível de uma vida potente.
Nossa razão, a maneira como entendemoso o mundo e nossas ações, é conduzida - num primeiro momento - também pelo afeto, logo, quem está em sofrimento, tenderá a escolhas que - de início - o levam ao sofrimento. Romper com a servidão é, tendo ciência do processo de condicionamento provocado pelo sofrimento, saber escolher situações que o diminuam - sem jamais ignorar sua existência. Assim, com o passar do tempo, com o aclaramento das ideias, com a melhora do "afeto inicial", nossas escolhas produzem ações "mais limpas" e menos influencidas por atitudes que diminuem a vontade. A cura, a liberdade, é um processo demorado, mas a única forma possível de uma vida potente.
Dentre todas as coisas, talvez, o Amor seja o caminho universal para a felicidade e, claro, para o aumento da "sua potência de agir". E, assim sendo, se agora sofre, se tem tem sua potência diminuida, será que isso é Amor?