quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Ser ou não-ser com William

Sr. Willian, estou entrando na fase dos "inta" e não consegui realizar nada de muito substancial. Sabe, eu sempre quis ser médico, mas com o tempo este sonho se foi. Sem querer parecer dramático, mas as vezes tenho a impressão que eu não consigo "Ser" e que, por isso, estou fadado a "não-ser". Isto é normal?

R: Caríssimo Alfredo, as coisas em meu tempo eram bem diferentes das do tempo que vives - como você sabe, acredito. Morri em 23 de abril de 1616 e, talvez, meus conselhos não sejam o mais interessante para você. Contudo, parece-me, que algumas coisas tocam a todos os seres humanos e, claro, é sobre isso que eu quero falar. Tudo bem?

Então, não sei se consigo entender os padrões de normalidade do seu tempo, mas fica uma pergunta inicial: é “mais nobre para alma suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes um fim tentando resistir-lhes?

Não há como saber os “sonhos que o sono da Morte trará”, nada há de absolutamente confiável sobre este respeito. Por isso, retira desta “covarde consciência” (aonde reside o temor da morte) toda fraqueza existente e alimente a coragem para a ação premente à vida. Afinal, acredite, você "É" alguma coisa e jamais poderá deixar de ser até o dia que se consuma a sua morte. Ser, Alfredo, é tomar as rédeas da própria vida e, logo, "não-ser" é tornar-se refém deste espectro da morte que não abandona os vivos. 

Sendo mais direto ainda, a questão é: se não fizer nada, neste momento, daqui para frente, as coisas irão se realizar? Acredito que não, não é?

Para terminar um trecho de outra peça (Júlio César): "os covardes morrem muitas vezes antes sua morte; os valentes morrem uma única vez”.

O resto, Alfredo, é apenas silêncio...

Platão, conselheiro amoroso


Platão me explique esta história de Amor Platônico, por favor? Tomei um "toco" no último domingo e acho que estou sofrendo desta coisa aí. Estou muito triste. Sabe, ela é tão bonita...


R: Marcus, eu não criei esta categoria de "Amor platônico", mas posso comentar um pouco sobre o AMOR e te ajudar, quem sabe, com este tal de "toco" que você tomou. Tranquilo?

Então, Diotima disse certa vez para Sócrates que ”a natureza mortal procura, na medida de suas forças, eternizar-se e imortalizar-se", ou seja, que nosso medo de morrer nos impulsiona o tempo todo para uma relação com o outro na tentativa de gerarmos filhos e, consequentemente, sermos capazes de vencer a morte - viver, deste jeito, em nossos descendentes. Então, neste caso, temos uma primeira características do Amor: sua tentativa de se conservar, de viver para sempre. Por isso, meu primeiro conselho é aprenda viver com ele.

Sobre a beleza, agora. Então, já escrevi em "o banquete" que há uma "beleza que não se apresenta como rosto ou como mãos ou qualquer outra coisa corporal" e que, por isso mesmo, não sofre nenhum tipo de influência externa. Esta, por isso mesmo, é a beleza enquanto essência, aquela que só é percebida pelos deuses e que, é alcançada gradativamente pelo intermédio do Amor. Por isso, você a acha "tão bela". Neste caso, graças ao amor, você está acessando aquilo que há de mais profundo, que existe para além dos corpos. Então, meu segundo conselho é: apesar do sofrimento imputado, ouça os conselhos do amor, ele te ajuda a enxergar além das aparências.

Agora, uma reflexão..

Marcus, você sabia que o Amor é filho da penúria e da esperteza? Ou seja, que o Amor é ao mesmo tempo "pobre" e "esperto" o suficiente para deixar de sê-lo. Isto o faz, por consequência, ter ao mesmo tempo duas naturezas. Já percebeu como os amantes são capazes de "tolices" e "ousadias"? É a característica fundamental do amor, a ambivalência. Por isso, uma pessoa conduzida pelo amor é feliz/infeliz - não há um estado perpétuo para o amante. Em suma, "quem não se considera incompleto e insuficiente, não deseja aquilo cuja falta não pode notar". Logo, seu sentimento de incompletude é o resultado de sua infelicidade anterior (antes do contato com este amor repentino), logo, se já fosse feliz antes ainda assim estaria. Por isso, cuidado...