Sr. Willian, estou entrando na fase dos "inta" e não
consegui realizar nada de muito substancial. Sabe, eu sempre quis ser médico, mas com o tempo este
sonho se foi. Sem querer parecer dramático, mas as vezes tenho a impressão que
eu não consigo "Ser" e que, por isso, estou fadado a
"não-ser". Isto é normal?
R: Caríssimo Alfredo, as coisas em meu tempo eram bem diferentes
das do tempo que vives - como você sabe, acredito. Morri em 23 de abril de 1616 e, talvez,
meus conselhos não sejam o mais interessante para você. Contudo, parece-me, que
algumas coisas tocam a todos os seres humanos e, claro, é sobre isso que eu
quero falar. Tudo bem?
Então, não sei se consigo entender os padrões de normalidade do
seu tempo, mas fica uma pergunta inicial: é “mais nobre para alma suportar
os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de
desventuras e dar-lhes um fim tentando resistir-lhes?”
Não há como saber os “sonhos que o sono da Morte trará”,
nada há de absolutamente confiável sobre este respeito. Por isso, retira desta
“covarde consciência” (aonde reside o temor da morte) toda fraqueza existente e alimente a coragem para a ação
premente à vida. Afinal, acredite, você "É" alguma coisa e jamais poderá deixar de ser até o dia que se consuma a sua morte. Ser, Alfredo, é tomar as rédeas da própria vida e, logo, "não-ser" é tornar-se refém deste espectro da morte que não abandona os vivos.
Sendo mais direto ainda, a questão é: se não fizer nada, neste
momento, daqui para frente, as coisas irão se realizar? Acredito que não, não
é?
Para terminar um trecho de outra peça (Júlio César): "os
covardes morrem muitas vezes antes sua morte; os valentes morrem uma única vez”.
O resto, Alfredo, é apenas silêncio...